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A Ceia Invisível: Por que quem alimenta também precisa se nutrir neste fim de ano

  • Foto do escritor: Editorial Revista Bonapetit
    Editorial Revista Bonapetit
  • 16 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

Enquanto o mundo se prepara para brindar com champanhe e fartura, a espinha dorsal da nossa indústria enfrenta sua maratona mais exaustiva. É hora de falarmos sobre a sustentabilidade humana nas cozinhas profissionais durante as festas.


O som é inconfundível para qualquer um que já vestiu um dólmã: o ruído ritmado da impressora térmica cuspindo pedidos sem parar. Em dezembro, essa trilha sonora ganha um andamento frenético, quase ensurdecedor. Enquanto as luzes da cidade piscam em tons de festa e as famílias planejam suas ceias, o profissional de gastronomia seja ele o chef estrelado, o cozinheiro da linha de frente, o empreendedor do buffet ou o confeiteiro artesanal entra em modo de sobrevivência.


Há uma beleza inegável na nossa profissão: a capacidade de doar, de materializar afeto em forma de comida. Somos os arquitetos das memórias de fim de ano dos outros. No entanto, existe uma linha tênue entre a dedicação apaixonada e o auto-sacrifício perigoso. E, infelizmente, a cultura da cozinha, historicamente forjada no rigor militar e na glorificação do "aguentar o tranco", muitas vezes nos empurra para o segundo lado.


Nesta coluna de fim de ano, não vim falar sobre tendências de peru ou a melhor harmonização para a rabanada. Vim fazer um apelo humanizado, de colega para colega, sobre a importância vital de mantermos uma rotina mínima de saúde física e mental durante o caos de Natal e Réveillon.


O Custo Oculto do "Serviço Perfeito"

Nós sabemos como funciona: a adrenalina mascara o cansaço. O foco no prato perfeito faz esquecermos da própria fome. O desejo de agradar o cliente supera a necessidade de ir ao banheiro. Durante anos, romantizamos essa entrega total. Mas a que custo?

Burnout, lesões por esforço repetitivo, desidratação crônica e um estresse mental que perdura muito depois que o último cliente vai embora. Um profissional exausto não apenas prejudica a si mesmo, mas também compromete a operação. A criatividade morre no cansaço, a paciência com a equipe desaparece e os erros – às vezes perigosos acontecem.

Manter uma rotina saudável não é um "mimo" ou frescura; é uma estratégia de negócio e, acima de tudo, um ato de respeito próprio. Não podemos servir excelência se estivermos operando no vermelho.


O Planejamento como Escudo Protetor

Como, então, inserir saúde em um período que naturalmente pede excesso de trabalho? A resposta não está em milagres, mas em planejamento estratégico e pequenas negociações inegociáveis com nós mesmos e nossas equipes.

Aqui estão alguns pilares que líderes e profissionais devem considerar:

1. A Logística da Realidade: O cardápio de fim de ano deve ser desenhado pensando não apenas no cliente, mas na exequibilidade pela equipe. Simplificar processos sem perder a qualidade é sinal de inteligência, não de preguiça. O mise en place inteligente, feito com antecedência, é a maior ferramenta de redução de estresse que existe. Se algo pode ser adiantado dois dias antes, que seja.


2. O "Staff Meal" Sagrado: É uma ironia cruel que as pessoas que preparam banquetes muitas vezes comam restos, em pé, sobre uma lixeira, em 5 minutos. Chefes e empreendedores: garantam que a refeição da equipe (o "rango da família") seja nutritiva, feita com dignidade e que haja tempo real para comê-la sentados, antes do caos começar. Um time bem alimentado tem outra energia na praça.


3. Hidratação Tática: Parece óbvio, mas nas cozinhas a 40°C, esquecemos de beber água. Tornem isso uma regra. Tenham estações de hidratação acessíveis. Um cozinheiro desidratado raciocina mais devagar e se irrita mais rápido.


4. Micro-pausas e Rotação: Ninguém consegue manter 110% de foco por 12 horas seguidas. Líderes de cozinha precisam estar atentos para rodar a equipe, permitindo que cada membro saia do calor por 10 minutos, respire ar fresco, alongue as costas. Isso não atrasa o serviço; isso salva o serviço.


5. O Pós-Serviço Humano: Quando a última comanda sai, a adrenalina despenca. O que acontece depois? Evitem a cultura de ir direto para o álcool excessivo como única forma de descompressão. Incentivem o descanso real. Proporcionar transporte seguro para a equipe que sai de madrugada também é um cuidado essencial.


Uma Nova Cultura para um Novo Ano

Para que essa rotina seja bem aproveitada, a mudança precisa vir de cima. Os chefs-proprietários e gestores precisam dar o exemplo. Se o chef não para para comer, a equipe sente que também não pode parar. Se o líder trata o próprio corpo como máquina descartável, a cultura tóxica se perpetua.

Precisamos normalizar a vulnerabilidade na cozinha. Dizer "estou no meu limite, preciso de 5 minutos" deve ser visto como um ato de responsabilidade, não de fraqueza.

Neste fim de ano, enquanto você orquestra a alegria alheia, lembre-se de guardar um pouco de cuidado para si e para sua brigada. A gastronomia é uma maratona, não um sprint de dezembro. Queremos vocês inteiros, criativos e saudáveis para continuar nos encantando em 2025 e muito além.


A toda a comunidade da gastronomia, um Natal de muito trabalho, sim, mas também de muita saúde e respeito mútuo.


Bon appétit e bom serviço a todos.


Editorial Revista Bonapetit 2025 - Dezembro 2025

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