Os grandes desafios de ser um chef e profissional de gastronomia no Brasil
- Editorial Revista Bonapetit

- 14 de jan.
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Ser chef de cozinha no Brasil é, antes de tudo, um ato de resistência. Por trás dos pratos autorais, das fotos bem iluminadas nas redes sociais e do glamour que muitas vezes envolve o universo gastronômico, existe uma rotina marcada por desafios profundos, estruturais e emocionais que impactam diretamente a vida dos profissionais do setor.
Salários: talento nem sempre bem remuneradoApesar da complexidade técnica e criativa exigida, os salários na gastronomia brasileira ainda estão longe de refletir o nível de responsabilidade e especialização do profissional. Em muitos casos, chefs e cozinheiros recebem valores que mal acompanham o custo de vida, especialmente nos grandes centros urbanos. A disparidade entre a expectativa do mercado e a remuneração real leva muitos talentos a acumularem funções, jornadas extras ou até a abandonarem a profissão.
Custos elevados e margens apertadasPara quem empreende, o cenário é igualmente desafiador. Aluguel, energia, gás, impostos, folha de pagamento e insumos de qualidade compõem uma equação financeira extremamente delicada. A inflação dos alimentos, a dependência de fornecedores e a instabilidade econômica tornam a margem de lucro cada vez mais estreita. Muitos chefs se veem obrigados a escolher entre manter a qualidade do produto ou garantir a sobrevivência do negócio.
Carga de trabalho intensa e desgaste físicoA rotina na cozinha é exaustiva. Jornadas longas, trabalho em finais de semana e feriados, pressão constante por desempenho e ambientes de alta temperatura fazem parte do dia a dia. O desgaste físico é acompanhado, muitas vezes, por problemas de saúde como dores crônicas, lesões por esforço repetitivo e fadiga extrema. A romantização da “vida corrida de chef” esconde um alto custo para o corpo e a mente.
Pressão emocional e saúde mentalAlém do cansaço físico, há a pressão emocional. Metas agressivas, avaliações constantes do público, críticas nas redes sociais e a necessidade de inovar continuamente geram ansiedade e insegurança. A saúde mental ainda é um tema pouco discutido no setor, apesar de sua relevância crescente. Burnout, estresse e frustração fazem parte da realidade de muitos profissionais que amam o que fazem, mas se sentem invisíveis e sobrecarregados.
Reconhecimento e valorização profissionalOutro desafio é a falta de reconhecimento. Muitos profissionais altamente qualificados enfrentam desvalorização, informalidade e pouca perspectiva de crescimento estruturado. O chef, muitas vezes, é visto apenas como executor, quando na verdade é gestor, criador, líder de equipe e estrategista de negócios.
O desafio de se reinventarEm meio a esse cenário, a capacidade de adaptação tornou-se essencial. Dominar gestão, marketing, posicionamento digital e relacionamento com o público passou a ser tão importante quanto cozinhar bem. O chef brasileiro de hoje precisa ser multifuncional para se manter relevante e competitivo.
ConclusãoSer um profissional de gastronomia no Brasil é enfrentar diariamente um sistema complexo, desafiador e, por vezes, ingrato. Ainda assim, é também um espaço de paixão, identidade cultural e transformação social. Valorizar esses profissionais passa por reconhecer seus desafios, promover condições de trabalho mais justas e compreender que, por trás de cada prato servido, existe uma história de esforço, sacrifício e amor pela cozinha.
editorial Revista Bonapetit 2026-jan.




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