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GASTRONOMIA SEM FILTROS

Títulos, cargos ou talento? O jogo silencioso dos aproveitadores na gastronomia


Na gastronomia, os crachás falam alto. Chef executivo. Consultor gastronômico. Chef internacional. Mentor culinário. Em um mercado cada vez mais inflado por títulos e cargos de impacto, surge uma pergunta que incomoda e que poucos têm coragem de fazer em voz alta: o que realmente importa na carreira de quem vive a cozinha: o que se faz… ou o que se diz que é?


Nos bastidores, o contraste é gritante. De um lado, profissionais que passaram anos no calor da cozinha, construindo técnica, liderança e consistência. Do outro, figuras que surgem repentinamente com cargos pomposos, mas pouca vivência real. É o crescimento silencioso de um fenômeno preocupante: os aproveitadores do mercado gastronômico.

São profissionais que colecionam títulos, mas evitam o serviço. Que falam em processos, mas não sabem segurar uma praça. Que ensinam, mas nunca lideraram uma equipe em noite de casa cheia. Muitos nunca enfrentaram um sábado caótico, um fornecedor atrasado ou uma equipe reduzida no meio do serviço mas vendem autoridade como se tivessem vivido tudo isso.


E o mercado, muitas vezes, compra.

A lógica é simples e perigosa: quem comunica melhor parece saber mais. Quem se apresenta melhor parece ser melhor. Em tempos de redes sociais e marketing pessoal agressivo, a aparência de sucesso tem ocupado o lugar da experiência real. O problema é que a cozinha não perdoa. O prato chega à mesa e ali, não há título que salve.


Um cozinheiro experiente do Nordeste contou que foi liderado por alguém com mais cargos no currículo do que horas reais de fogão. O resultado foi uma operação confusa, equipe desmotivada e uma alta rotatividade. “Ele sabia falar bonito, mas não sabia fazer”, resumiu.


Isso levanta uma reflexão incômoda:quando títulos valem mais do que entrega, quem paga o preço são os profissionais da base.

A cozinha sempre foi um espaço de hierarquia conquistada no dia a dia, não imposta por nomenclaturas. O respeito vinha do exemplo, da postura no serviço, da capacidade de resolver problemas sob pressão. Hoje, em muitos casos, o cargo vem antes da competência e o caos vem logo depois.

Isso não significa que cargos e títulos não tenham valor. Eles têm — quando são consequência de trajetória, e não atalho. O problema surge quando se tornam máscaras para encobrir a falta de vivência, ou moedas para explorar quem ainda acredita no romantismo da profissão.


No meio desse cenário, a pergunta central se impõe:o que deve pesar mais na carreira gastronômica: o nome no cartão ou a história construída no fogão?

Porque, no fim das contas, a cozinha revela tudo.Ela expõe quem lidera de verdade.Quem ensina com prática.E quem apenas ocupa espaço.

Talvez esteja na hora de o mercado parar de aplaudir discursos vazios e voltar a valorizar o que sempre sustentou a gastronomia: trabalho real, experiência verdadeira e respeito conquistado no calor do serviço.


O resto… é barulho.


Editorial Revista Bonapetit - Janeiro 26

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